sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Gauchismo – uma cultura alternativa inventada (que deu certo).


Dizem que Luis Fernando Veríssimo disse: “verdade é a versão que cola!”. Se disse, está muito bem dito.
O gauchismo contemporâneo, que abre discussões convergentes e divergentes sobre a Tradição Gaúcha (por vezes compreendida como Neotradição Gaúcha, outras, por Pseudotradição Gaúcha) defendida por Paixão Cortes, Barbosa Lessa e outros fundantes e fundamentantes, foi um conceito “alternativo” inventado que, por simpatia, “pegou” na cultura gaúcha.

Nunca os vi (os criadores) defendê-la como verdade absoluta, nem como regra de sociedade dentro das fronteiras geográficas do RS. Defendem sim, o argumento e elemento criado como uma das formas de identidade do RS, na falta de outros que ilustrariam e dariam uma plástica mais convincente e confortável para ser adotada. Não esperaram alguém que buscasse uma cepa, ressecada pela condução política da época, para a cultura originária do RS. Ou seja, na falta de alguma (talvez mais verdadeira), a versão que colou foi a do “Laçador” tomando chimarrão, comendo churrasco e contando as bravatas dos Farroupilhas, às vezes cantando, outras dançando.

Neste contexto, uma circunstância criada no final da década de 1940, vira uma prática saudável. Nem todos praticam ou nem todos bem a praticam, mas tem em suas mentes uma simbologia que ilustra rapidamente costumes e comportamentos locais, a exemplo do Frevo em Recife e Olinda, o Boi de Parintins, o Pelourinho na Bahia e assim por diante, mundo afora.

Provavelmente o “Laçador” montado a cavalo não imaginou uma pessoa com deficiência de bombacha e botas dançando chula, assim como um amputado de membros inferiores não foi imaginado de sombrinha na mão dançando frevo. Logo se pergunta – a figura do gaúcho ágil e austero não causa inveja ao riograndense de cadeira de rodas ou com alguma deficiência que o impeça de praticar o gauchismo?

Antes de responder, analise: se faz bem aos olhos, fará bem ao coração. Prefere-se ser gaúcho a estar gaúcho. Essa multiplicidade de identidades suporta mais outras, como a de uma prenda de muletas – é só querer! Mesmo não podendo jogar futebol, aprecia-se uma partida da modalidade, por outra, podendo jogar, há quem não goste de assistir um jogo.


Então, essa cultura inventada que deu certo pode ser customizada: um indivíduo com uma prótese de perna pode dançar chula e um paralisado cerebral pode apresentar a “dança do pezinho” – é só reinventar e reinventar-se – pode dar certo!