quinta-feira, 13 de outubro de 2016

NÃO AO SINCRETISMO: RESULTADO DAS URNAS


A concepção de normalidade paira sobre a vontade consciente ou inconsciente das pessoas. O que seria relativo ou subjetivo passa a ser um desejo – por querer paz de espírito ou porque o que seria alternativo não se mostrou eficaz – de ordem, no sentido de normalidade.

Deslumbradamente se via o clipe musical (vídeo) ilustrando a “era de aquarius”, no final do século passado, como algo que deveria ser experimentado: um pouco de tudo; uma anarquia (ausência de poder centralizado); e a aceitação de tudo com passividade consciente.

Este pensamento minou e alcançou as instâncias de poder e, naturalmente, a política. A esquerda se engrandece com um discurso aproximado do “um novo mundo é possível”, aceitando as diferenças e absorvendo toda uma gama de pessoas que não tinha opiniões e opções definidas. Eis que se estrutura uma ideologia, não por seu discurso ou conceito, mas pela massa de adeptos que depositam esperança em um modelo concebido individualmente e que se torna coletivo: tudo “pode ser possível”. Daí começa-se a ter orgulho de ser negro, branco, pessoa com deficiência, homossexual, pobre e assim por diante.

Mas é preciso ter orgulho de ser algo ou alguém? Não basta simplesmente sê-lo?
Diante destas indagações o conceito de diversidade e inclusão é posto em cheque. Se se tem orgulho de ser diferente, não se está sendo inclusivo. Leva-se a identidade a um patamar exclusivo – o de se considerar pertencente a algo relevante – e não simplesmente ser mais um.

Enquanto isso a esquerda, através de seus representantes, alia-se ao centro e até a parte da direita para se fortalecer no poder. E se fortalece. Passa a adotar práticas direitistas e começa a fazer mais do mesmo. Os sonhos de “outras possibilidades” pouco saem do papel e dos discursos e, quando saem, trazem uma carga de assistencialismos ou privilégios.

Começa-se a observar um distanciamento daquilo que era pregado como “outras possibilidades”. Não obstante, mas complementarmente, certas classes sociais incomodam-se de dividir seus contextos e circunstâncias com tantos novos desconhecidos vindos, talvez, “de baixo” e que querem partilhar dos mesmos hábitos e espaços.

Tudo passa a ser seletivo sem se praticar seleção. A desorganização se diz organizada e isso já não satisfaz mais os vindos de “aquarius”. Quer-se ver alguma normalidade. O sincretismo confunde e confusão leva a desconfiança, que leva ao descontentamento, que leva ao enfraquecimento.

O que a eleição de 2016 revelou foi uma insatisfação com o que está posto, concretizada nas abstenções, nos votos brancos e nulos. Talvez por isso os partidos de bancadas religiosas tenham elevado o seu número de votos, pois tem posições mais claras – sem aqui, fazer juízo sobre serem satisfatórias, mas são mais claras – ou seja, tendem a uma normalidade.
As pessoas com deficiência vão às urnas como qualquer outro cidadão, sem orgulho, apenas para cumprir um dever cívico, antes de ser um dever legal. E isto é a prática do discurso sobre inclusão. Isto são as tais “novas possibilidades”, neste caso, sem sincretismos.

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