Gauchismo – uma cultura alternativa inventada (que deu certo).
Dizem que Luis Fernando Veríssimo
disse: “verdade é a versão que cola!”. Se disse, está muito bem dito.
O gauchismo contemporâneo, que
abre discussões convergentes e divergentes sobre a Tradição Gaúcha (por vezes
compreendida como Neotradição Gaúcha, outras, por Pseudotradição Gaúcha)
defendida por Paixão Cortes, Barbosa Lessa e outros fundantes e fundamentantes,
foi um conceito “alternativo” inventado que, por simpatia, “pegou” na cultura
gaúcha.
Nunca os vi (os criadores)
defendê-la como verdade absoluta, nem como regra de sociedade dentro das
fronteiras geográficas do RS. Defendem sim, o argumento e elemento criado como
uma das formas de identidade do RS, na falta de outros que ilustrariam e dariam
uma plástica mais convincente e confortável para ser adotada. Não esperaram
alguém que buscasse uma cepa, ressecada pela condução política da época, para a
cultura originária do RS. Ou seja, na falta de alguma (talvez mais verdadeira),
a versão que colou foi a do “Laçador” tomando chimarrão, comendo churrasco e
contando as bravatas dos Farroupilhas, às vezes cantando, outras dançando.
Neste contexto, uma circunstância
criada no final da década de 1940, vira uma prática saudável. Nem todos
praticam ou nem todos bem a praticam, mas tem em suas mentes uma simbologia que
ilustra rapidamente costumes e comportamentos locais, a exemplo do Frevo em
Recife e Olinda, o Boi de Parintins, o Pelourinho na Bahia e assim por diante,
mundo afora.
Provavelmente o “Laçador” montado
a cavalo não imaginou uma pessoa com deficiência de bombacha e botas dançando
chula, assim como um amputado de membros inferiores não foi imaginado de sombrinha
na mão dançando frevo. Logo se pergunta – a figura do gaúcho ágil e austero não
causa inveja ao riograndense de cadeira de rodas ou com alguma deficiência que
o impeça de praticar o gauchismo?
Antes de responder, analise: se
faz bem aos olhos, fará bem ao coração. Prefere-se ser gaúcho a estar gaúcho.
Essa multiplicidade de identidades suporta mais outras, como a de uma prenda de
muletas – é só querer! Mesmo não podendo jogar futebol, aprecia-se uma partida
da modalidade, por outra, podendo jogar, há quem não goste de assistir um jogo.
Então, essa cultura inventada que
deu certo pode ser customizada: um indivíduo com uma prótese de perna pode
dançar chula e um paralisado cerebral pode apresentar a “dança do pezinho” – é
só reinventar e reinventar-se – pode dar certo!






