quarta-feira, 25 de março de 2015

NÃO SOU INTELECTUAL

Não sou intelectual – já havia dito, tenho senso comum apurado – e se o fosse, escreveria um outro “O Príncipe” tentando convencer algum governante a fazer a coisa certa pra ele e pra mim. Eis o motivo que levou Maquiavel a escrever aquele que se tornou um clássico: quem lê a carta que ele envia junto ao manuscrito percebe uma tendência natural de quem está precisando de emprego em convencer seu possível empregador; são os interesses preponderando sobre o altruísmo. Por isto, e anacronicamente, chamado de maquiavélico.

Já ouvi argumentos de que aquela era outra época (1.503 D.C) e em circunstâncias diferentes (poder do Papa ou clero versus poder monárquico), mas percebi quando li O Príncipe que ele estava sendo sagaz, tendencioso e ardiloso, confirmado no texto da carta que ele enviou ao príncipe. Logo o “adjetivo” maquiavélico tem a mesma conotação desde sua origem.

Mas... voltando ao “não sou intelectual”, não o sou também por falta de tempo para dedicar-me, pois precisaria de ócio para estudar e produzir estudos – ócio criativo, defendido pelo sociólogo italiano Domenico de Masi – e mais do que isso, teria que ser titulado para dar credibilidade à minha produção.

Tento sempre dizer (ou escrever) que quando digo que sei (e o que sei pode ser pouco) espero oportunidade para provar através da prática.

- Tá! Mas por que estou dizendo isto?

- Porque hoje tive que escrever uma “carta de intenção” me candidatando a uma vaga de emprego pela internet, e junto, enviar meu currículo.

Então a prática maquiavélica pode ser motivo de repúdio por pessoas e instituições quando é explicita, porém quando pode tornar-se necessária continua prevalecendo implicitamente como regra de conduta burocrática.

E quando uma professora é arrastada pelos cabelos pela mãe de um aluno, os maquiavélicos continuam tomando as providências, para o bem do Estado e o mal dos pecados.

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