A concepção de normalidade
paira sobre a vontade consciente ou inconsciente das pessoas. O que seria
relativo ou subjetivo passa a ser um desejo – por querer paz de espírito ou porque
o que seria alternativo não se mostrou eficaz – de ordem, no sentido de
normalidade.
Deslumbradamente se via o
clipe musical (vídeo) ilustrando a “era de aquarius”,
no final do século passado, como algo que deveria ser experimentado: um pouco
de tudo; uma anarquia (ausência de poder centralizado); e a aceitação de tudo
com passividade consciente.
Este pensamento minou e
alcançou as instâncias de poder e, naturalmente, a política. A esquerda se
engrandece com um discurso aproximado do “um novo mundo é possível”, aceitando
as diferenças e absorvendo toda uma gama de pessoas que não tinha opiniões e
opções definidas. Eis que se estrutura uma ideologia, não por seu discurso ou
conceito, mas pela massa de adeptos que depositam esperança em um modelo
concebido individualmente e que se torna coletivo: tudo “pode ser possível”.
Daí começa-se a ter orgulho de ser negro, branco, pessoa com deficiência,
homossexual, pobre e assim por diante.
Mas é preciso ter orgulho de
ser algo ou alguém? Não basta simplesmente sê-lo?
Diante destas indagações o
conceito de diversidade e inclusão é posto em cheque. Se se tem orgulho de ser
diferente, não se está sendo inclusivo. Leva-se a identidade a um patamar
exclusivo – o de se considerar pertencente a algo relevante – e não
simplesmente ser mais um.
Enquanto isso a esquerda,
através de seus representantes, alia-se ao centro e até a parte da direita para
se fortalecer no poder. E se fortalece. Passa a adotar práticas direitistas e
começa a fazer mais do mesmo. Os sonhos de “outras possibilidades” pouco saem
do papel e dos discursos e, quando saem, trazem uma carga de assistencialismos
ou privilégios.
Começa-se a observar um
distanciamento daquilo que era pregado como “outras possibilidades”. Não
obstante, mas complementarmente, certas classes sociais incomodam-se de dividir
seus contextos e circunstâncias com tantos novos desconhecidos vindos, talvez,
“de baixo” e que querem partilhar dos mesmos hábitos e espaços.
Tudo passa a ser seletivo
sem se praticar seleção. A desorganização se diz organizada e isso já não
satisfaz mais os vindos de “aquarius”.
Quer-se ver alguma normalidade. O sincretismo confunde e confusão leva a
desconfiança, que leva ao descontentamento, que leva ao enfraquecimento.
O que a eleição de 2016
revelou foi uma insatisfação com o que está posto, concretizada nas abstenções,
nos votos brancos e nulos. Talvez por isso os partidos de bancadas religiosas
tenham elevado o seu número de votos, pois tem posições mais claras – sem aqui, fazer juízo sobre serem satisfatórias, mas são
mais claras – ou seja, tendem a uma normalidade.
As pessoas com deficiência
vão às urnas como qualquer outro cidadão, sem orgulho, apenas para cumprir um
dever cívico, antes de ser um dever legal. E isto é a prática do discurso sobre
inclusão. Isto são as tais “novas possibilidades”, neste caso, sem
sincretismos.






