segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A ARTE DE COMPRAR ALFINETES

Alguém já comprou alfinetes para pregar as barras de calças?´

Aqueles simples – cabeça e haste, não um pregador – minha mãe aproveitava os que fixavam camisas novas em suas respectivas caixas. E eu aproveitava o papel duro que moldava a dobra das camisas para escrever meus primeiros ensaios, no início dos anos de 1980. Num deles escrevi, com minha didática simplória dos primeiros anos de escola, que a abolição dos escravos era interessante, pois eles também acabariam pagando impostos.

Acabei comprando uma latinha (de plástico) cheia de alfinetes para minha mãe, ela parou de costurar anos depois e ainda existia metade deles. Era cultura pós-guerra (a segunda), onde tudo ou quase tudo era reaproveitado. As canetas bic acabavam ou “estouravam”. As latas de óleo de soja viravam canecos. Os sacos plásticos eram lavados e reusados.

Agora tudo é descartável, até ideologias, em nome das mudanças e das renovações. O pote de alfinetes nem sabe que fim se deu (dizem que foi para o céu dos guarda-chuvas).

Tem um lado positivo nisto: eu não sei mais comprar alfinetes. Porém sofro de vazio ideológico, uma doença pós-moderna, causada por um vírus chamado abstração, que hora ou outra é mutante e se transforma em sectarismo ou fisiologismo. Tento me curar pensando nos alfinetes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

QUANDO O FATO É CHATO... CRIEI OUTRA VERSÃO

O chefe não estava em casa quando os subordinados foram à despensa. Descobriram nas prateleiras mantimentos desorganizados - ninguém sabia quanto tinha, nem o que tinha - eram latas e mais latas, frascos e mais frascos, litros e galões. Alguns poucos queriam organizar, outros queriam usar e mais outros decidiram vender as "sobras". E venderam.

Quando o chefe chegou notou algo diferente. Porém inconsequente, não deu valor a imagem. Alguém lhe avisou de agiotagem, traquinagem, malandragem e ele não avaliou. Mas a despensa não era dele - era dos que vivem na grande casa e contribuem para encher os recipientes - e só quis saber se  sua prateleira havia sido preservada.

Ele era o chefe (todo poderoso - título dado por Maquiavel) e seus conselheiros e subordinados ameaçaram culpá-lo do ocorrido. Ele, desprecavido, não soube desfazer a teia. Olhou no relógio e conferiu: 47 do segundo tempo, 1 x 0 para seu time; partida ganha...

Os que vivem na casa grande estão tontos, nunca tinham olhado a despensa, só sabiam que ela existia. Trabalham pra comprar  sua comida e bebida, vestuário e o que mais lhe permite a remuneração.

Conivente e incompetente, o chefe tá pagando pra ver, pois já não depende da aprovação dos outros todos - que também, apáticos - estão expectadores.

Continua chato este fato... não gostei da minha versão!

Faça a sua versão. Sugiro que o personagem "chefe" seja feminino e nomine os mantimentos, aí a versão pode ficar bem melhor ou até tenha um final correto e feliz... (quem sabe!).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

VERBOS E MEDIDAS

A medida é diferente, mas o verbo é o mesmo: roubar uma agulha ou roubar um avião.

Não poderia furtar-me de falar sobre os atentados de Paris.  Parece que é resposta ao que foi ofensivo, abusivo ou deliberadamente casuístico. Não apoio a violência porque reconheço suas nuances – mas todos reconhecem? Os atos de violência são tidos como tal por seus praticantes? São conscienciosos?

Desenhar Maomé em ósculo com outro homem ou matar seu desenhista: verbo e medidas diferentes.
Mas veja, estes verbos e medidas influenciam sentimentos e comportamentos. 
Aquela agulha era de minha bisavó e costurou muitas feridas de meus entes queridos. O avião, nem sei de quem era!

E lidaram com religião, sagrado e profano, vulgar e fé. Os pacotes excederam o peso – porém, ainda, eram pacotes – um de papel e outro de cultura e sentimentos, com intensidades diferentes para seus destinatários.

domingo, 21 de dezembro de 2014

QUASE NATAL

Lembro que há alguns natais atrás escrevi algo sobre “vende-se espírito natalino”, onde falava sobre a falta de solidariedade e consumismo.

Era já sintoma da minha falta do tal espirito. Hoje lembrei os natais da minha infância. Fazíamos ninhos de barba-de-pau embaixo da árvore de natal – que era um galho de pinheiro (araucária) enfeitado com coisas que meus irmãos produziam a partir de embalagens de bombons e outros poucos enfeites que apareciam por lá – esperávamos ansiosos pelos presentes. E o que eram? Algumas poucas balas e alguns chocolates baratos. Mas era maravilhoso, do tamanho da bicicleta ou do tablet que ganhamos hoje.

Dou-me conta de que não é o tamanho do presente que importa e sim o que ele representa e as circunstâncias que o recheiam. Continuo com quase nenhum espírito natalino e começo a traduzir isso como a falta de significados em que meus natais se transformaram.

Sei que não estamos lendo novidades, é apenas uma reflexão. O romancista Thomas Hardy, do Reino Unido, conhecido pelo seu pessimismo (quero crer que não sentia o “espírito natalino”), certa vez escreveu: “A medida da vida deveria ser proporcional à intensidade da experiência mais do que à sua duração”. Eis que Jesus Cristo durou apenas 33 anos.

Vamos tentar um exercício para buscar o Espírito Natalino: neste Natal dê um único presente, que não seja clichê, a quem você tenha certeza que não espera. Observe o tamanho da felicidade de quem recebeu e espere um bom abraço de Feliz Natal!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

MAIS PRÁTICA

Neste dia (3 de dezembro), que é o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, lembro-me de um assunto e tema recorrente – cidadania na perspectiva do potencial destas pessoas – através da empregabilidade e do trabalho. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) entre 2012 e 2013, foram criados 27,5 mil empregos formais ocupados por pessoas com deficiência, um aumento de 8,33%. A informação é da Relação Anual de Informações Sociais - RAIS 2013.
Algo para se comemorar? Sim.
Porém, deve-se observar que estes avanços são quantitativos e não qualitativos. Falo de qualidade sob a ótica da cultura de mercado de trabalho que ainda não vê a pessoa com deficiência (PcD) como alguém “produtivo”.
Explico:
A pesquisa da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Isocial e Catho, divulgada em novembro de 2014, mostra que 81% dos recrutadores contratam pessoas com deficiência apenas para cumprir a lei; por acreditar no potencial, somente 4%, e contratam independente da exigência da cota 12%. Um reflexo preocupante do preconceito aparece em 65% dos gestores que afirmaram ter resistência de contratar pessoas com deficiência e que 93% demonstram resistência para entrevistar estes profissionais. A pesquisa ouviu 2.949 profissionais do setor.
Ainda, observo (empiricamente) que pessoas com deficiência com graduação, pós-graduação e demais títulos ascendentes não tem melhores oportunidades de remuneração e de cargos de liderança, gerenciais ou diretivos dentro das empresas. São equiparados a uma classe (que não existe) de trabalhadores que precisam trabalhar a qualquer preço e que a oportunidade já se configura algo diferenciado por concepção mercadológica (e preconceituosa).
Portanto, dicotomicamente temos avanços estruturais importantes em áreas que circundam o tema, porém percebesse pouco avanço cultural no mesmo campo. E assumo o risco de dizer que prevalece o interesse (dos empregadores) em “baratear” o custo do trabalho, encontrando nas PcDs uma oportunidade concreta para tal manobra.
A solução? Perseverança na busca da mudança cultural, pois no discurso todos já decoraram a afirmação que soa bonito: “eu acredito no potencial produtivo das pessoas, independente de ser deficientes ou não”.
Fonte de dados numéricos: <http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/noticias/cresce-em-83-o-numero-de-pessoas-com-deficiencia-com-contrato-formal-de-trabalho> Acesso em 03 de dez. 2014.

domingo, 30 de novembro de 2014

GOSTAMOS DO CHAVES

Aquele personagem que tem seu criador e interprete Roberto Gómez Bolaños, falecido na última sexta-feira (28/11/2014), é o Chaves (El Chavo del Ocho, da origem na TV mexicana). Isso muita gente sabe, mas a inspiração para tal pode ter vindo de outra figura real (não fictícia), que também morava num barril, era Diógenes (412-323 a.C.), o Cínico. Na Filosofia é apontado como um filósofo que menosprezou os poderosos e as convenções sociais. Foi discípulo de um discípulo de Sócrates. Valorizava as coisas da natureza e renunciava valores materiais, tendo-os como futilidades.

O humor inocente e sagaz de Bolanõs, depositado no Chaves, com requintes de simplicidade na percepção das coisas e com óbvia intenção de objetividade em suas respostas diretas, porém muito inteligentes, traduz nossas intenções mais puras, mais internalizadas na busca daquilo que nos é essencial – ser bom sem ser ingênuo – para produzirmos mais empatia e justeza.

O senso comum, reproduzido nos episódios do Chaves, traz filosofia caricata e comete deslizes, tal qual nós e nossos comportamentos, sem a severidade da culpa. As amenidades do cotidiano não são potencializadas e não se transformam em batalhas de consciência ou em conflitos do direito pelo direito.

Não tenho a presunção de me sentir filósofo – quiçá sofista – mas tenho percepção de que na filosofia de Diógenes e do Chaves admite-se errar como ser humano e acertar como ser social, admitindo-se variáveis do comportamento humano sem deixar de ser, na essência, bom e solidário.

¡Por esta razón me gusta ver El Chavo!

domingo, 2 de novembro de 2014

VOLTA EM TORNO DO NADA
(final de domingo)

Já não me bastam as incertezas
Para buscar a pureza,
Para buscar mais de tudo,
Pois em meu semblante carrancudo
A plástica faz um sorriso.
Tenho mais do que preciso
E menos que me garanta:
Não quero fartura, mas segurança,
Mais daquilo que me põe em pé.
E de tão pouca fé,
Derruba-me a preguiça,
Falta aquilo que me atiça:
Um pouco de sal na borda,
Mais nó naquela corda
Que chamo de minha jornada.
E para voltar ao nada
De antes deste começo,
Escrevo, porém me apresso,
Invento a derradeira parada.