Aqueles simples – cabeça e haste, não um pregador – minha mãe aproveitava os que fixavam camisas novas em suas respectivas caixas. E eu aproveitava o papel duro que moldava a dobra das camisas para escrever meus primeiros ensaios, no início dos anos de 1980. Num deles escrevi, com minha didática simplória dos primeiros anos de escola, que a abolição dos escravos era interessante, pois eles também acabariam pagando impostos.
Acabei comprando uma latinha (de plástico) cheia de alfinetes para minha mãe, ela parou de costurar anos depois e ainda existia metade deles. Era cultura pós-guerra (a segunda), onde tudo ou quase tudo era reaproveitado. As canetas bic acabavam ou “estouravam”. As latas de óleo de soja viravam canecos. Os sacos plásticos eram lavados e reusados.
Agora tudo é descartável, até ideologias, em nome das mudanças e das renovações. O pote de alfinetes nem sabe que fim se deu (dizem que foi para o céu dos guarda-chuvas).
Tem um lado positivo nisto: eu não sei mais comprar alfinetes. Porém sofro de vazio ideológico, uma doença pós-moderna, causada por um vírus chamado abstração, que hora ou outra é mutante e se transforma em sectarismo ou fisiologismo. Tento me curar pensando nos alfinetes.
