Não sou
intelectual – já havia dito, tenho senso comum apurado – e se o fosse,
escreveria um outro “O Príncipe” tentando convencer algum governante a fazer a
coisa certa pra ele e pra mim. Eis o motivo que levou Maquiavel a escrever
aquele que se tornou um clássico: quem lê a carta que ele envia junto ao
manuscrito percebe uma tendência natural de quem está precisando de emprego em
convencer seu possível empregador; são os interesses preponderando sobre o altruísmo.
Por isto, e anacronicamente, chamado de maquiavélico.
Já
ouvi argumentos de que aquela era outra época (1.503 D.C) e em circunstâncias
diferentes (poder do Papa ou clero versus
poder monárquico), mas percebi quando li O Príncipe que ele estava sendo sagaz,
tendencioso e ardiloso, confirmado no texto da carta que ele enviou ao príncipe.
Logo o “adjetivo” maquiavélico tem a mesma conotação desde sua origem.
Mas...
voltando ao “não sou intelectual”, não o sou também por falta de tempo para
dedicar-me, pois precisaria de ócio para estudar e produzir estudos – ócio criativo,
defendido pelo sociólogo italiano Domenico de Masi – e mais do que isso, teria
que ser titulado para dar credibilidade à minha produção.
Tento
sempre dizer (ou escrever) que quando digo que sei (e o que sei pode ser pouco)
espero oportunidade para provar através da prática.
- Tá!
Mas por que estou dizendo isto?
-
Porque hoje tive que escrever uma “carta de intenção” me candidatando a uma
vaga de emprego pela internet, e junto, enviar meu currículo.
Então
a prática maquiavélica pode ser motivo de repúdio por pessoas e instituições
quando é explicita, porém quando pode tornar-se necessária continua
prevalecendo implicitamente como regra de conduta burocrática.

